Os desafios dos jovens para ingressar no mercado de trabalho no Espírito Santo: iniciando o debate a partir do IQEF-ES

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As temáticas ligadas à juventude vêm sendo tratadas, no Espírito Santo, em vários e distintos aspectos, abrangendo, inclusive, temas complexos que marcam a juventude atualmente. Aspectos como violência, drogas, conflitos inter-geracionais, formação e educação, criatividade e relação com as novas tecnologias são constantemente debatidos.

Menos intenso e menos frequente - mas muito necessário -, entretanto, é o debate acerta dos desafios que enfrentam os jovens capixabas para acessar o mercado de trabalho formal no Espírito Santo. Embora esses desafios convirjam com os mesmos em escala nacional, ainda assim é preciso fazer um esforço para entender as especificidades dessas dificuldades e possibilidades no território capixaba.

Isso porque na medida em que o debate vai se aprofundando é que se pode desenhar políticas públicas com maiores possibilidades de efetividade. Ou seja, é preciso debater e conhecer profundamente o tema para poder desenhar políticas públicas mais acertadas.

A existência de um desemprego estrutural entre os jovens adia, de forma perigosa, a construção de uma trajetória e carreira profissional, e isso traz consequências irreparáveis uma vez que sua trajetória ocupacional tem vinculação clara com suas possibilidades de ascensão social. As dificuldades dos jovens são de tal monta que os estudos sobre essa temática apontavam que as barreiras de ingresso no mercado eram significativas até os 24 anos de idade. Estudos mais recentes, porém, apontam que as dificuldades têm se estendido até os 29 anos de idade.

 Nesse sentido, tem importância central a análise da situação dos jovens no mercado de trabalho capixaba. Se há constrangimentos para o ingresso e permanência no mercado formal de trabalho, o agravamento da condição juvenil aparece como inexorável, com riscos sérios até para o tecido social capixaba. Políticas públicas, nesse sentido, são imprescindíveis.

 Esse artigo levanta a discussão sobre a participação dos jovens no mercado de trabalho formal no Espírito Santo no período de 2007 e 2017. Nos quadros de crescimento seguido de uma severa crise e uma retomada frágil do crescimento econômico, como fica a participação dos jovens no mundo do trabalho? Quais desafios encontram?

 

OS DESAFIOS DOS JOVENS NO MERCADO DE TRABALHO

 De forma geral, a dedicação dos jovens à escola é predominante até 18 anos de idade. A partir daí, o trabalho assume o papel principal. Mesmo que em certas condições sociais a combinação de trabalho e estudo seja muito antecipada, é por volta dos 18 anos que a pressão para ingressar no mundo do trabalho aumenta fortemente.

 Acontecendo antes ou em torno dessa idade, os jovens passam a enfrentar severos desafios para ingressar no mercado formal de trabalho. Ainda que de forma resumida, essas dificuldades podem ser vistas de três formas que se somam, aumentando o grau de dificuldade de acesso ao trabalho formalizado.

 Em primeiro lugar, há uma transição em curso no mundo do trabalho que cria uma distância significativa entre o sistema educacional e as condições de demanda do mercado de trabalho. Isso quer dizer que em muitos casos, mesmo concluindo o ensino superior, a formação adquirida pelo jovem não é suficiente para preencher as qualidades e requisitos das vagas existentes. Nessas condições, muitas vezes, é necessário fazer outros cursos de aperfeiçoamento complementares ou, em tantos outros casos, assumindo funções / ocupações fora da sua área de formação, geralmente com funções mais simples do para qual foi formado.

 Em segundo lugar, o mundo do trabalho tem sido severamente impactado pela mudança tecnológica, na maioria das vezes, poupadora de mão de obra. Isso quer dizer que a transição tecnológica tende a reduzir o ritmo de contratações independente da idade do empregado, fazendo com que surja uma massa de pessoas não necessárias ao mercado.  Se por outro lado essa mesma transição tecnológica cria também novas oportunidades e novas ocupações, essas requerem um grau elevado de especialização – geralmente tecnológica – que o sistema educacional não cobre com seu ensino formal.

 Em terceiro lugar, a instabilidade macroeconômica pela qual passa o país e o Espírito Santo – que leva a sucessões de período de crescimento e período de crise – cria oscilações também no mercado de trabalho, fazendo com que muitos formandos enfrentem dificuldades por terem que ingressar no mercado de trabalho justamente no momento de incertezas na economia, incertezas essas que muitas vezes persistem apesar de taxas positivas de crescimento do Pib.

Enfrentar essas três condições somadas para romper as dificuldades de ingressar, de forma digna, no mercado de trabalho requer que o jovem encontre certos tipos de apoios institucionais e de políticas públicas para que isso se dê.

  

OS JOVENS E O MERCADO DE TRABALHO FORMAL NO ESPÍRITO SANTO

Os dados levantados pelo Observatório do Desenvolvimento Capixaba – ODC, no período de 2007 a 2017, mostram que a participação relativa dos jovens no mercado formal de trabalho caiu seguidamente. De fato, como se observa no gráfico abaixo, os jovens até 24 anos em 2007 representavam 19,1% dos trabalhadores com carteira assinada no Espírito Santo e essa participação foi de apenas 13,0% em 2017.

Grave é saber que nesse período, que cobre 11 anos, é fato que muitos jovens, ou pela idade, ou pelas condições sociais, necessitaram entrar no mercado de trabalho e não tiveram êxito.

GRÁFICO 1 – PARTICIPAÇÃO RELATIVA DOS JOVENS NO MERCADO FORMAL DE TRABALHO NO ESPÍRITO SANTO – 2007 A 2017

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego – Rais  (2019)

Grave é perceber que as oportunidades para jovens foram diminuídas mesmo em épocas que o PIB do estado apresentava taxa positivas de crescimento. O gráfico abaixo deixa claro que mesmo no período de 2010 a 2014 em que o PIB capixaba cresceu significativamente, a participação dos jovens foi constantemente reduzida.

A partir de 2014, quando instalada a crise nacional, o PIB capixaba passou a apresentar retração relativa. Se observa, então, um aumento da velocidade de queda da participação dos jovens no mercado formal de trabalho. Isso acende uma grande lâmpada amarela, de alerta, mostrando a necessidade de se debruçar sobre o tema e entender mais profundamente as razões e explicações dessa realidade desfavorável aos jovens. 

 

GRÁFICO 2 – PARTICIPAÇÃO DOS JOVENS NO MERCADO FORMAL DE TRABALHO NO ESPÍRITO SANTO E PIB CAPIXABA – 2007 A 2017 (2007=100)

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego – Rais  (2019)

Essa condição é mais severa em algumas microrregiões do estado. Como se vê na tabela abaixo, para o ano de 2017, nas microrregiões Litoral Sul e Central Sul, a participação dos jovens encontra os menores índices, enquanto a microrregião Centro Oeste apresenta a maior participação. A tabela mostra também a participação relativa dos jovens no mercado formal nos municípios da Região Metropolitana, responsáveis por mais de 50% do emprego formal em todo o estado.

Por aí se observa que a menor participação relativa se dá na capital do estado, com apenas 8,5%.

TABELA 1 – PARTICIPAÇÃO RELATIVA DOS JOVENS NO MERCADO FORMAL, POR MICRORREGIÃO E REGIÃO METROPOLITANA EM 2017

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego – Rais  (2019)

 

 O IQEF-ES E E A DIMENSÃO DE OPORTUNIDADES

O IQEF-ES (Índice de Qualidade do Emprego Formal no Espírito Santo) divulgado pelo Observatório do Desenvolvimento Capixaba –ODC é um índice sintético que mensura a qualidade do emprego formal no Espírito Santo, para cada uma das 10 microrregiões capixabas levando em consideração as questões econômicas, de sofisticação da mão de obra e ocupações e também estatísticas ligadas às oportunidades que o mercado microrregional de trabalho oferece. Na sua dimensão de oportunidades, o IQEF-ES assume que quanto mais o mercado local abre espaço (a) pessoas procurando o prmeiro emprego (em qualquer idade), (b) jovens (até 24 anos) (c) mulheres (uma antiga luta pela igualdade de gênero), maior a qualidade do emprego formal na região.

 Levando essas três estatísticas, a dimensão oportunidades do IQEF-ES para todas as microrregiões do Espírito Santo apresentou uma significativa queda, conforme mostram os mapas abaixo:

Fonte: Observatório do Desenvolvimento Capixaba - IQEF-ES (2019)

 

É possível ver que o IQEF-ES na sua dimensão oportunidades é mais baixo, em 2017 em todas as regiões litorâneas, exatamente as que apresentam maior dinâmica econômica capixaba.

  

O IQEF-ES E E A DIMENSÃO DE OPORTUNIDADES PARA OS JOVENS

Quando se abre o IQEF-ES para que o índice reflita especificamente a oportunidades aos jovens até 24 anos, é possível ver uma perda da qualidade do emprego formal puxado por esse fechamento de oportunidades.

É possível perceber, pelo gráfico, que a retração na participação dos jovens, discutida anteriormente, forçou a perda da qualidade também em todas as microrregiões capixaba.

 

GRÁFICO 3 – IQEF-ES – DESAGREGAÇÃO EM RELAÇÃO AS OPORTUNIDADES AOS JOVENS – POR MICROREGIÃO – 2007 A 2017

Fonte: Observatório do Desenvolvimento Capixaba – IQEF-ES  (2019)

Esse componente de qulidade atinge os menores valores nas regiões Metropolitana e Litoral Sul, novamente apontada com as mais dinâmicas economicamente. Disso, como os dados anteriores também já nos levaram a ver, depreende-se que nem sempre os espaços mais dinâmicos são necessariamente mais geradores de oportunidade para esse grupo de pessoas.

Nesse quadro temporal (2007 a 2017) em que o IQEF-ES cai rapidamente e sistematicamente, agrava-se ainda mais as variáveis de vulnerabilidade social dos jovens, já que, como colocado anteriormente, um mercado de trabalho com melhor índice de qualidade, abrindo oportunidade aos jovens, permite a esses estabelecer sua trajetória ocupacional e social.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os trabalhadores jovens que buscam sua inserção no mercado formal de trabalho encontram sérias dificuldades de múltiplas naturezas. Essas condições e dificuldades têm penalizado severamente esse grupo da população, que, diante da escassez de postos de trabalho entram em desvantagem no mercado de trabalho. Isto ocorre também porque a mão de obra dos jovens é mais sensível às oscilações da demanda agregada.

No Espírito Santo, os dados são claros em explicitar essas dificuldades e o IQEF-ES capta exatamente essa realidade, mostrando que o índice de qualidade do emprego formal no Espírito Santo, aplicado à dimensão de oportunidades aos jovens caiu em todas as regiões, mesmo no período em que a economia apresentou crescimento.

Por isso, é premente o desenho de políticas públicas que sirvam como mecanismos de auxilio aos jovens para promover esse ingresso, com qualidade e dignidade do trabalho, reduzindo o risco de esses se dirigirem ao trabalho informal e precário. Além disso, é premente o estudo das efetividades das várias medidas de políticas públicas que foram tomadas e direcionadas para a temática juvenil ao longo do tempo.

 

Informações do Autor
Ednilson Silva Felipe
Author: Ednilson Silva FelipeEmail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Professor do Departamento de Economia - Ufes. Professor do Mestrado em Engenharia e Desenvolvimento Sustentável e do Mestrado / Doutorado em Economia da UFES. Membro do Observatório do Desenvolvimento Capixaba e Coordenador do Centro de Estudos e Pesquisas sobre o Desenvolvimento do Espírito Santo.

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